CARA-DE-BARRO É A “SUBSTÂNCIA” DA DC?

Se A Substância, um vilão da galeria B do Batman e uma Gotham realista fossem jogados no liquidificador, o resultado teria gosto de barro. A pergunta é: essa vitamina estranha fica boa ou a DC finalmente encontrou uma receita que devia ter deixado quieta?

 

A desconfiança era compreensível. Em vez de apostar apenas nos medalhões de sempre, a DC resolveu colocar um vilão menos conhecido no centro de um filme de terror corporal. E, num universo cinematográfico que ainda está tentando convencer o público de que existe um plano maior por trás das capas, Cara-de-Barro chegou com uma missão curiosa: provar que dá para entrar em Gotham sem chamar o Batman para resolver tudo.

 

A premissa é simples. Matt Hagen é um ator em ascensão cuja carreira e aparência são destruídas depois de um encontro com o crime. Desesperado para recuperar o que perdeu, ele aceita um tratamento experimental que devolve seu rosto — mas cobra um preço bem mais grotesco do que qualquer contrato de Hollywood. O filme acompanha essa transformação e a espiral de vingança que vem junto. É uma história de origem, sim, mas com mais carne, sangue e matéria orgânica do que capa e pose heroica.

 

Gotham sem o morcego — e com bastante barro

Antes de falar de James Watkins, vale desfazer a confusão que tomou conta das conversas sobre o filme: Mike Flanagan não dirige Cara-de-Barro e também não aparece no elenco. O envolvimento dele começou como autor da história e do roteiro que abriu caminho para o projeto. Em 2025, a DC contratou Hossein Amini para reescrever o rascunho anterior de Flanagan; nos créditos oficiais, os dois aparecem como roteiristas, enquanto Flanagan também recebe crédito pela história. Portanto, dizer que o longa é “o filme de Flanagan” apaga uma etapa importante — e dizer que ele não teve participação também seria errado.

Flanagan chegou a querer dirigir o projeto, mas não conseguiu conciliar a produção com outros trabalhos. Ele explicou que estava comprometido com Carrie e O Exorcista e que a DC queria avançar num calendário para o qual ele não estaria disponível por anos. A passagem de bastão, segundo ele, foi compreensível; não há motivo para transformar a mudança de diretor numa novela de bastidores com barro e tochas.

Porém Watkins sabe circular pelo desconforto. O diretor já passou por diferentes terrenos do terror, de Eden Lake e A Mulher de Preto ao remake de Não Fale o Mal. Em Cara-de-Barro, ele usa essa experiência para tratar a transformação física de Matt não como um mero efeito especial para o trailer, mas como o centro do horror: o corpo muda, a identidade escapa e a sensação de controle vai embora. A escolha combina com a proposta: o terror aqui não é só susto, é a experiência de assistir a alguém perder a familiaridade com o próprio corpo.

E aqui veio a surpresa: contra a expectativa de um projeto que poderia parecer um derivado feito só para preencher calendário, o filme encontra uma identidade própria. A fotografia é ótima e constrói uma Gotham que parece existir para além dos limites do enquadramento. A cidade não está ali apenas para receber uma placa com o nome “Gotham” e uma chuva dramática; ela tem textura, rotina e uma sensação constante de que alguma coisa ruim pode acontecer na próxima esquina.

A ambientação é tão convincente que eu me sentiria totalmente à vontade vendo o Pinguim da série da HBO, o Coringa de Joaquin Phoenix ou o Batman de Matt Reeves circulando por aquelas ruas. Não porque o filme esteja dizendo que todos dividem a mesma continuidade — não estão —, mas porque essa Gotham tem uma materialidade que conversa com versões mais pé no chão desses personagens. E isso funciona demais: Cara-de-Barro é um filme sem Batman em que você sabe que ele está lá, mesmo quando ninguém precisa apontar para o céu e acender o holofote do morcego.

O terror corporal, ou body horror, é gráfico e não pede licença. Há imagens feitas para causar agonia, e o trabalho prático dos efeitos ajuda a dar peso e presença à transformação. Quem tem aversão a ferimentos, deformações e àquela sensação de “meu Deus, tira isso da tela” talvez queira escolher outro programa — ou pelo menos evitar o lanche antes da sessão. É um filme visceral porque quer ser visceral. Nesse aspecto, não fica só prometendo horror no material de divulgação: entrega a nojeira com convicção.

 

Uma história de origem que não passa pano

Como adaptação, Cara-de-Barro não parece interessado em transformar cada referência dos quadrinhos numa caça ao tesouro. Fãs mais atentos certamente vão reconhecer elementos, ecos e possíveis easter eggs, mas o filme não depende desse repertório para funcionar. Se você nunca ouviu falar do personagem ou simplesmente não tem paciência para filmes de super-heróis, ainda consegue entrar na história sem precisar fazer lição de casa sobre a cronologia do barro.

O foco está em Matt Hagen, naquilo que ele perde e no que decide fazer depois disso. O elenco sustenta bem essa proposta, com atuações que ajudam a vender tanto o drama quanto o desconforto físico. Tom Rhys Harries carrega o peso da transformação, enquanto Naomi Ackie, Max Minghella e o restante do elenco dão corpo ao mundo ao redor dele. O filme não trata seus personagens como peças esperando a próxima cena de ação; há gente ali, e isso importa quando o horror começa a apertar.

O roteiro é simples — e, felizmente, não confunde simplicidade com falta de direção. A trama acompanha uma jornada de transformação e vingança, mas escapa do caminho mais automático da “redenção do vilão”. Nem todo sofrimento vira passe livre para fazer qualquer coisa, nem toda origem trágica é uma absolvição com trilha emocionante. O filme entende que descobrir como alguém chegou à monstruosidade não é o mesmo que declarar essa pessoa inocente.

É uma abordagem que lembra, em espírito, o que Pinguim fez ao observar personagens moldados pela violência sem reduzir tudo a uma desculpa moral. O passado ajuda a entender; não apaga as escolhas. E essa diferença deixa a jornada de Matt mais interessante do que um simples “olha só como nasceu o monstro”.

 

A vitamina de barro funciona?

Funciona. Cara-de-Barro é uma grata surpresa: um terror de super-herói que não precisa pendurar o Batman na parede para justificar a própria existência. Tem atmosfera, uma fotografia que dá personalidade à cidade e efeitos que fazem o horror chegar perto demais. Seu roteiro não reinventa o gênero e tampouco precisa fingir que inventou. Ele sabe qual história quer contar e, na maior parte do tempo, não se distrai tentando ser cinco filmes diferentes ao mesmo tempo.

A mistura de A Substância, Gotham e um vilão menos conhecido podia virar uma vitamina intragável. Em vez disso, a DC serviu algo estranho, pegajoso e surpreendentemente bem preparado. Só não vá de estômago cheio: o barro aqui tem textura.

Vale o ingresso e a ida ao cinema. Evite comer antes da sessão.

 

Avaliação:
 — 4 de 5 corações

Cara-de-Barro estreia nos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026.

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