A galhofa venceu de Perfect ou deu Game Over?
Por muito tempo, adaptações de jogos de luta para o cinema pareciam ter escolhido o golpe especial errado: tentavam levar a sério demais o que já nasceu exagerado — ou esqueciam que, por trás de cada personagem, existe uma legião de fãs esperando para vê-lo fazer aquela pose, soltar aquele golpe e, se possível, dizer aquela frase.
A nova adaptação de Mortal Kombat deu um respiro ao lembrar uma coisa simples: abraçar a galhofa e entregar fan service com vontade pode funcionar. Mas será que essa fórmula daria certo com Street Fighter, uma franquia que transformou torneios, rivalidades e golpes impossíveis em religião de fliperama?
A resposta é sim. E, antes que alguém peça revanche, explico: o filme sabe exatamente o que quer ser.
Um Hadouken direto na nostalgia
Street Fighter é uma franquia de jogos de luta da Capcom em que guerreiros de diferenpartes do mundo se enfrentam em torneios, rivalidades e disputas que frequentemente terminam com alguém voando pela tela. O filme entende que tentar esconder esse exagero seria como pedir ao Ryu para resolver tudo numa conversa madura. Até poderia ser bonito. Mas não foi para isso que compramos a ficha.
Se você não viveu os anos 90 no auge dos fliperamas de botequim, imagine a cena: o troco do pão virava ficha, a ficha virava esperança e, em menos de um minuto, a esperança virava uma revanche exigida em voz alta. Sua honra — e possivelmente a atenção de quem estava esperando para jogar — dependia de defender aquela ficha como se fosse o último campeonato mundial.

É dessa memória que o filme parece se alimentar. Ele reúne os elementos que os fãs querem ver: personagens reconhecíveis, visuais tirados diretamente do imaginário dos jogos e momentos que fazem a plateia pensar: “Caraca, é aquele golpe!”, “Nossa, aquela pose!” e, inevitavelmente, “Meu Deus… ele disse. Ele disse!”
O roteiro está ali, claro. Precisa conectar as lutas e dar um motivo para essa turma toda sair no soco. Mas não é exatamente o protagonista da noite. E tudo bem: ele cumpre sua função sem atravancar a diversão. Nem todo filme de jogo de luta precisa fingir que vai reinventar o cinema. Às vezes, basta entender o próprio combo.
M. Bison e a missão ingrata
O elefante branco — ou melhor, o ditador de uniforme — da sala é M. Bison, interpretado por David Dastmalchian. O personagem vem carregando uma sombra enorme: a de Raúl Juliá, que marcou a adaptação de 1994 mesmo em um filme que entrou para a história por motivos bem particulares.

Dastmalchian recebe uma missão ingrata: não apagar Juliá, mas convencer o público de que existe outro caminho para o vilão. E o filme trabalha essa diferença apresentando um Bison ainda em construção. Literalmente. O visual não tem a imponência ameaçadora do personagem nos jogos, mas essa escolha combina com a ideia de um antagonista que ainda está se tornando o chefão que conhecemos.
O resultado funciona. Dastmalchian segura o papel, dá presença ao vilão e não compromete o conjunto. Não é uma tentativa de repetir Raúl Juliá — e ainda bem. Repetir o impossível seria um plano de batalha meio suspeito.
As atuações, no geral, não estão disputando o Oscar. Mas há mérito em encontrar intérpretes que conseguem se aproximar dos personagens e, principalmente, se caracterizar de um jeito que aciona o reconhecimento imediato dos fãs. O prêmio aqui é ver aquela figura que você conhece ganhar corpo, roupa, cabelo e alguns problemas de coordenação social resolvidos na base do soco.
Anos 90, volume no máximo
A fotografia e a estética também apostam na viagem temporal. A ambientação tem aquele gosto de anos 90 que ajuda a compor a experiência, e a trilha traz uma seleção que passa por nomes como Alanis Morissette e The Offspring. Para quem viveu a época, é um bônus a mais; para quem não viveu, é uma chance de descobrir que a juventude também sobrevivia com guitarras altas e decisões questionáveis.
Outro acerto é a dublagem brasileira. Não assisti à versão legendada, então não vou fingir que posso comparar as duas. Mas, na sessão dublada, as piadas e a zoeira ganharam um molho especial. O humor tem energia de quinta série B, e chuta pra longe o politicamente correto sem pedir licença e a conversa entre os personagens tem uma aura de brotheragem que combina com o espírito descomplicado do filme.
É uma experiência que parece dizer: “Relaxa, a gente sabe que isso é absurdo. Agora olha esse golpe.”
Quando o live-action não dá conta, entra o 2D
Um dos recursos mais espertos do filme é misturar animação 2D às cenas em live action. Em vez de tentar resolver tudo com efeitos que poderiam ficar artificiais ou simplesmente caros demais, a produção usa a animação para representar momentos que pedem outra linguagem.
E funciona muito bem. As transições não parecem um remendo: viram parte da brincadeira, ajudam a traduzir a energia dos jogos e dão identidade às cenas. É uma solução visual que entende os limites do live action sem ficar constrangida por eles. Se a tela pode virar um jogo por alguns instantes, por que não aproveitar?
Então: Perfect ou game over?
Street Fighter não é um drama marcial profundo, nem uma tese sobre a condição humana entre um chute e um Hadouken. É um filme para se divertir, reconhecer referências, rir das piadas, vibrar com as lutas e, se estiver no clima, soltar um “HADOUKEN!” sem se preocupar com a dignidade — ela já ficou no fliperama, junto com as fichas.

A galhofa venceu? Venceu. Mas venceu porque o filme sabe que galhofa não é o mesmo que descuido: é uma escolha de tom. Street Fighter abraça o exagero, entrega fan service e entende que, às vezes, o melhor jeito de respeitar uma franquia é deixar os personagens serem tão absurdos quanto os fãs sempre imaginaram.
Avaliação:
— 4,5 de 5 corações
É filme para assistir no cinema, de preferência com companhia que não julgue seus comentários durante a luta. Se alguém gritar “Hadouken!”, considere parte da experiência — desde que não esteja gastando sua ficha.